Gripe: As Variações Antigénicas
Gripe: Que Bicho é Este?
FERREIRA, Wanda F. Canas;SOUSA, João Carlos F. - Microbiologia Vol., Lidel .Lisboa, 2002. ISBN 972-757-136-0
Gripe: A História do Vírus
Incoerência Pública - A Gripe A/H1N1/2009
Porquê a Pandemia?
A 7 de Setembro de 1918 um soldado americano adoeceu com uma febre grave. Foi-lhe diagnosticado meningite. Entretanto uma dezena de soldados adoecia com os mesmos sintomas. Dia 16 do mesmo mês já se contavam 36 novos casos, e uma semana depois já o número era de 12604 doentes num universo de 45 mil soldados. Cerca de 800 soldados morreram.
Este “novo tipo de infecção ou praga” mencionado por William Welch foi responsável por cerca de 40 milhões de mortes, em todo o mundo, entre 1918 e 1919. De facto esta infecção não era nova.
As pandemias de gripe humana apareceram duas vezes depois de 1918 (em 1957 e em 1968).
As pandemias de gripe resultam da “mistura” de estirpes de vírus de humanos e de aves, nos porcos.
O vírus da gripe aviaria reconhece oligossacáridos com ligações ácido siálico do tipo ASα2,3Gal, presente no trato respiratório das aves. Mas o vírus da gripe humana reconhece oligossacáridos com ligações ácido siálico do tipo ASα2,6Gal, presente no trato respiratório humano. Como é que os humanos podem ser infectados com estirpes aviarias? A resposta está nos suínos. Eles são conhecidos como “misturadores”, misturam as duas estirpes pois apresentam os dois tipos de ligações e, se tiverem contraído as duas estirpes de vírus, estes poderão fazer um rearranjo e voltar a infectar humanos mas agora com outra “aparência”.
Porque é que um vírus rearranjado pode provocar pandemias?
Todos os anos presenciamos epidemias de gripe, que resultam de deriva antigética (drift), que é a acumulação de mutações nos seus segmentos de RNA. O “drift” é lento e resulta da acumulação progressiva dessas mutações. No entanto há outra forma mais rápida de mudança genética, a alteração antigénica (shift). O “shift” consiste na redistribuição dos segmentos do vírus com outro subtipo geneticamente diferente. O sistema imunológico reconhece relativamente bem um vírus sujeito às forças genéticas do “drift” mas tem dificuldade em reconhecer o “shift” pois a alteração é enorme.
Fontes:
Scientific American
Aulas Virologia Prof. R. Parreira 2009, IMHT
O Perigo (Crime) da Desinformação na Internet

No blog do professor João Vasconcelos Costa pode ler-se algo a desmentir, ou melhor a desmistificar o perigo da vacina da Gripe A H1N1:
"em 1976, houve uma epidemia nos EUA, conhecida como New Jersey, de um vírus também H1N1, cuja vacina causou acidentalmente um número considerável de casos de uma doença relacionada com infecções virais, o sindroma de Guillain-Barré (SGB), um quadro clínico essencialmente caracterizado por paralisias diversas.
1. Ainda não há vacina para a gripe pandémica de 2009. A comparação com casos anteriores é especulativa. Cada epidemia é diferente (H1N1 é coisa muito larga, até há vírus sazonais deste tipo), cada vacina é diferente. Acidentes na Medicina sempre houve e são a excepção, nada que justifique suspeitar de que se repitam sistematicamente. Pelo contrário, servem para se aprender e estar atento a evitá-los no futuro.
2. Se a H1N1 de 1976 (New Jersey) tivesse relação com esta até era bom, estávamos imunizados. Repito, não se pode fazer comparações, muito menos em relação a uma vacina que ainda nem existe.
3. O SGB não é uma situação clínica ligeira ou agradável, mas está muito longe de ser classificado como “doença nervosa fatal”, como diz o artigo. Na grande maioria dos casos cura-se em meses e a mortalidade é inferior a 4%, tendendo a diminuir com os tratamentos actuais.
4. O SGB ocorre depois de variadas infecções virais, principalmente a gripe e também depois de vacinação contra a gripe sazonal, sarampo, hepatite B, etc.
5. Em 1976 houve cerca de 500 casos devido à vacinação, nos EUA. Todos os anos há nos EUA 5000 a 10000 casos de SGB devidos a doenças virais e vacinação.
6. Se estimarmos que um quinto dos americanos foi vacinado em 1976, a incidência de SGB foi de 10/100.000, comparada com a incidência habitual de 2-4/100.000/ano. Foi mais alta mas não enormemente mais.
7. O número de mortes foi de 25, donde uma taxa de mortalidade de 5%, semelhante à habitual.
8. É verdade que estas consequências da vacinação foram superiores às da própria gripe de 1976, mas isto não terá sido devido à vacinação, mesmo com as lamentáveis consequências que teve?
9. A gripe pandémica de 2009 vai com mais de 250.000 casos e mais de 3000 mortos com gripe confirmada laboratorialmente (de facto, provavelmente muitos mais). Vai haver certamente no outono/inverno uma segunda vaga muito maior.
10. Estudos rigorosos mostram que a vacinação de 70% da população causaria o fim rápido da pandemia.
11. Assim, apelos à recusa de vacinação são uma irresponsabilidade criminosa."
A Hemaglutanina (o "H" do H1N1, por exemplo), liga-se a receptores contendo ácido siálico. Terá de construir ligações alfa2-3 e a alfa 2-6. O porco possui os dois tipos de ligação e, desta forma, será elemento que pode misturar as estirpes que possuem estas ligações.
A H5N1 só tem transmissibilidade para humanos a partir de aves em condições muito precárias de higiene. Ao infectar um humano vai formar ligações alfa2-6, numa zona mais profunda dos pulmões. Assim, os poucos infectados correm grande risco de vida.
A H1N1 é transmissível entre humanos. Ao infectar um humano vai formar ligações alfa 2-3, da zona superior respiratória. É mais fácil tratar.
Origem da Gripe A e Previsão de Estirpes
A análise filogenética de genes do vírus da gripe obtida de amplas amostragens de espécies hospedeiras tem mostrado que aves selvagens são uma fonte primária, e que porcos domésticos são frequentemente os hospedeiros intermediários entre pássaros e humanos. Deste modo, é importante manter aves e porcos em instalações fechadas e separadas para evitar o contágio. E é importante manter a vigilância da Gripe A H5N1, altamente patogénica.
Os genomas da gripe A têm oito segmentos exclusivos que podem ser misturados e combinados entre linhagens de espécies hopedeiras diferentes. Esta forma de recombinação aliada à mutação em sequências de DNA fornece uma variação numa gama bastante alargada. E, assim, podem “enganar” os anticorpos do sistema imunitário desenvolvidos previamente. A combinação de amostragens geográficas com o histórico filogenético de segmentos específicos e mutações particulares patogénicas auxilia na previsão da doença e na identificação de candidatos para se usar no desenvolvimento de vacinas.
O reconhecimento sobre origens evolucionárias, hibridação entre genomas e a capacidade do vírus da gripe de trocar de hospedeiro, ajudam a minimizar os riscos.
Fonte: Scientific American
Vacina Pandémica já está em Teste
Duas empresas de biotecnologia australianas têm vacinas pandémicas A(H1N1)2009 em fase de testes, são elas a CSL e a Vaxine. “Segundo as previsões da Comissão Europeia, que alertou ontem para um maior contágio no Verão devido ao fluxo de turistas.” A Pandemia está aí, não parece. Muita gente começa a ficar desinteressada pelo excesso de notícias e porque não vêm um aumento brusco no número de casos em Portugal. De facto, ainda não há, mas vai começar a haver. Quando vier o Outono, sem cuidados por parte das pessoas, vem em força o vírus. E esperemos que não venha uma versão mutante e aniquiladora, pois aí a vacina poderá ser ineficaz.
Uma das voluntárias deste teste, “a australiana Tara Seaton, empregada de um posto de correios de 28 anos, (…) foi uma das pessoas que ontem começaram a experimentar os efeitos da vacina concebida pela empresa farmacêutica australiana CSL. O ensaio envolve 240 voluntários adultos saudáveis entre os 18 e os 64 anos.”
Começou a corrida! A corrida da concorrência. Isto é muito bom para o preço das vacinas poder ficar mais acessível. Já há duas empresas com a vacina em fase de testes na Austrália. Agora, também, “uma sociedade farmacêutica chinesa também apresentou ontem o início de ensaios clínicos com a duração de dois meses para uma outra vacina contra a gripe A. Mais de dois mil voluntários estarão envolvidos nos testes da Hualan Biological Engineering que (tal como a CSL) espera ter a vacina pronta para comercializar em Setembro. Nos EUA, o Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas (NIAID) pediu a adesão de milhares de voluntários para participar nos ensaios clínicos da vacina.”
Fontes:
Público - "Vacina contra a Gripe A está a ser testada em Humanos na Austrália"
Blog "Biotecnologia-Portugal" - "Gripe A: 2 Empresas Biotecnológicas Australiadas Iniciaram Testes da Vacina em Humanos"
02/02/2010
Gripe: As Variações Antigénicas
Por Dário Cardina Codinha
0 comentários chave Biologia, Doenças, Evolução, Genética, Gripe, Pandemia, Selecção Natural, Vírus

Posts Relacionados
Gripe: Que Bicho é Este?
FERREIRA, Wanda F. Canas;SOUSA, João Carlos F. - Microbiologia Vol., Lidel .Lisboa, 2002. ISBN 972-757-136-0
Gripe: A História do Vírus
Por Dário Cardina Codinha
0 comentários chave Biologia, Doenças, Gripe, História da Ciência, Pandemia, Vírus

Posts Relacionados
07/01/2010
Incoerência Pública - A Gripe A/H1N1/2009
08/11/2009
Porquê a Pandemia?
A 7 de Setembro de 1918 um soldado americano adoeceu com uma febre grave. Foi-lhe diagnosticado meningite. Entretanto uma dezena de soldados adoecia com os mesmos sintomas. Dia 16 do mesmo mês já se contavam 36 novos casos, e uma semana depois já o número era de 12604 doentes num universo de 45 mil soldados. Cerca de 800 soldados morreram.
Este “novo tipo de infecção ou praga” mencionado por William Welch foi responsável por cerca de 40 milhões de mortes, em todo o mundo, entre 1918 e 1919. De facto esta infecção não era nova.
As pandemias de gripe humana apareceram duas vezes depois de 1918 (em 1957 e em 1968).
As pandemias de gripe resultam da “mistura” de estirpes de vírus de humanos e de aves, nos porcos.
O vírus da gripe aviaria reconhece oligossacáridos com ligações ácido siálico do tipo ASα2,3Gal, presente no trato respiratório das aves. Mas o vírus da gripe humana reconhece oligossacáridos com ligações ácido siálico do tipo ASα2,6Gal, presente no trato respiratório humano. Como é que os humanos podem ser infectados com estirpes aviarias? A resposta está nos suínos. Eles são conhecidos como “misturadores”, misturam as duas estirpes pois apresentam os dois tipos de ligações e, se tiverem contraído as duas estirpes de vírus, estes poderão fazer um rearranjo e voltar a infectar humanos mas agora com outra “aparência”.
Porque é que um vírus rearranjado pode provocar pandemias?
Todos os anos presenciamos epidemias de gripe, que resultam de deriva antigética (drift), que é a acumulação de mutações nos seus segmentos de RNA. O “drift” é lento e resulta da acumulação progressiva dessas mutações. No entanto há outra forma mais rápida de mudança genética, a alteração antigénica (shift). O “shift” consiste na redistribuição dos segmentos do vírus com outro subtipo geneticamente diferente. O sistema imunológico reconhece relativamente bem um vírus sujeito às forças genéticas do “drift” mas tem dificuldade em reconhecer o “shift” pois a alteração é enorme.
Fontes:
Scientific American
Aulas Virologia Prof. R. Parreira 2009, IMHT
24/09/2009
O Perigo (Crime) da Desinformação na Internet
No blog do professor João Vasconcelos Costa pode ler-se algo a desmentir, ou melhor a desmistificar o perigo da vacina da Gripe A H1N1:
"em 1976, houve uma epidemia nos EUA, conhecida como New Jersey, de um vírus também H1N1, cuja vacina causou acidentalmente um número considerável de casos de uma doença relacionada com infecções virais, o sindroma de Guillain-Barré (SGB), um quadro clínico essencialmente caracterizado por paralisias diversas.
1. Ainda não há vacina para a gripe pandémica de 2009. A comparação com casos anteriores é especulativa. Cada epidemia é diferente (H1N1 é coisa muito larga, até há vírus sazonais deste tipo), cada vacina é diferente. Acidentes na Medicina sempre houve e são a excepção, nada que justifique suspeitar de que se repitam sistematicamente. Pelo contrário, servem para se aprender e estar atento a evitá-los no futuro.
2. Se a H1N1 de 1976 (New Jersey) tivesse relação com esta até era bom, estávamos imunizados. Repito, não se pode fazer comparações, muito menos em relação a uma vacina que ainda nem existe.
3. O SGB não é uma situação clínica ligeira ou agradável, mas está muito longe de ser classificado como “doença nervosa fatal”, como diz o artigo. Na grande maioria dos casos cura-se em meses e a mortalidade é inferior a 4%, tendendo a diminuir com os tratamentos actuais.
4. O SGB ocorre depois de variadas infecções virais, principalmente a gripe e também depois de vacinação contra a gripe sazonal, sarampo, hepatite B, etc.
5. Em 1976 houve cerca de 500 casos devido à vacinação, nos EUA. Todos os anos há nos EUA 5000 a 10000 casos de SGB devidos a doenças virais e vacinação.
6. Se estimarmos que um quinto dos americanos foi vacinado em 1976, a incidência de SGB foi de 10/100.000, comparada com a incidência habitual de 2-4/100.000/ano. Foi mais alta mas não enormemente mais.
7. O número de mortes foi de 25, donde uma taxa de mortalidade de 5%, semelhante à habitual.
8. É verdade que estas consequências da vacinação foram superiores às da própria gripe de 1976, mas isto não terá sido devido à vacinação, mesmo com as lamentáveis consequências que teve?
9. A gripe pandémica de 2009 vai com mais de 250.000 casos e mais de 3000 mortos com gripe confirmada laboratorialmente (de facto, provavelmente muitos mais). Vai haver certamente no outono/inverno uma segunda vaga muito maior.
10. Estudos rigorosos mostram que a vacinação de 70% da população causaria o fim rápido da pandemia.
11. Assim, apelos à recusa de vacinação são uma irresponsabilidade criminosa."
A Hemaglutanina (o "H" do H1N1, por exemplo), liga-se a receptores contendo ácido siálico. Terá de construir ligações alfa2-3 e a alfa 2-6. O porco possui os dois tipos de ligação e, desta forma, será elemento que pode misturar as estirpes que possuem estas ligações.
A H5N1 só tem transmissibilidade para humanos a partir de aves em condições muito precárias de higiene. Ao infectar um humano vai formar ligações alfa2-6, numa zona mais profunda dos pulmões. Assim, os poucos infectados correm grande risco de vida.
A H1N1 é transmissível entre humanos. Ao infectar um humano vai formar ligações alfa 2-3, da zona superior respiratória. É mais fácil tratar.
Por Dário Cardina Codinha
22 comentários chave Conspiração, Ética, Gripe, Pandemia

Posts Relacionados
15/08/2009
Origem da Gripe A e Previsão de Estirpes
A análise filogenética de genes do vírus da gripe obtida de amplas amostragens de espécies hospedeiras tem mostrado que aves selvagens são uma fonte primária, e que porcos domésticos são frequentemente os hospedeiros intermediários entre pássaros e humanos. Deste modo, é importante manter aves e porcos em instalações fechadas e separadas para evitar o contágio. E é importante manter a vigilância da Gripe A H5N1, altamente patogénica.
Os genomas da gripe A têm oito segmentos exclusivos que podem ser misturados e combinados entre linhagens de espécies hopedeiras diferentes. Esta forma de recombinação aliada à mutação em sequências de DNA fornece uma variação numa gama bastante alargada. E, assim, podem “enganar” os anticorpos do sistema imunitário desenvolvidos previamente. A combinação de amostragens geográficas com o histórico filogenético de segmentos específicos e mutações particulares patogénicas auxilia na previsão da doença e na identificação de candidatos para se usar no desenvolvimento de vacinas.
O reconhecimento sobre origens evolucionárias, hibridação entre genomas e a capacidade do vírus da gripe de trocar de hospedeiro, ajudam a minimizar os riscos.
Fonte: Scientific American
23/07/2009
Vacina Pandémica já está em Teste
Duas empresas de biotecnologia australianas têm vacinas pandémicas A(H1N1)2009 em fase de testes, são elas a CSL e a Vaxine. “Segundo as previsões da Comissão Europeia, que alertou ontem para um maior contágio no Verão devido ao fluxo de turistas.” A Pandemia está aí, não parece. Muita gente começa a ficar desinteressada pelo excesso de notícias e porque não vêm um aumento brusco no número de casos em Portugal. De facto, ainda não há, mas vai começar a haver. Quando vier o Outono, sem cuidados por parte das pessoas, vem em força o vírus. E esperemos que não venha uma versão mutante e aniquiladora, pois aí a vacina poderá ser ineficaz.
Uma das voluntárias deste teste, “a australiana Tara Seaton, empregada de um posto de correios de 28 anos, (…) foi uma das pessoas que ontem começaram a experimentar os efeitos da vacina concebida pela empresa farmacêutica australiana CSL. O ensaio envolve 240 voluntários adultos saudáveis entre os 18 e os 64 anos.”
Começou a corrida! A corrida da concorrência. Isto é muito bom para o preço das vacinas poder ficar mais acessível. Já há duas empresas com a vacina em fase de testes na Austrália. Agora, também, “uma sociedade farmacêutica chinesa também apresentou ontem o início de ensaios clínicos com a duração de dois meses para uma outra vacina contra a gripe A. Mais de dois mil voluntários estarão envolvidos nos testes da Hualan Biological Engineering que (tal como a CSL) espera ter a vacina pronta para comercializar em Setembro. Nos EUA, o Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas (NIAID) pediu a adesão de milhares de voluntários para participar nos ensaios clínicos da vacina.”
Fontes:
Público - "Vacina contra a Gripe A está a ser testada em Humanos na Austrália"
Blog "Biotecnologia-Portugal" - "Gripe A: 2 Empresas Biotecnológicas Australiadas Iniciaram Testes da Vacina em Humanos"











